31 de outubro de 2005

Há tempos...

Há tempos reli os meus diários antigos.
Descobri que com o passar dos anos não me tornei nem mais sábia, nem mais forte, nem sequer mais prudente. Estou apenas mais triste.

18 de outubro de 2005

Pecado capital

Se eu não tivesse versos mas certezas
e tu não fosses perpendicular aos meus desejos
talvez não desenhasses com a língua
estranhas circunferências nos meus beijos
e as nossas vidas fossem paralelas.

Se eu pudesse trocar o nome de cada rua
sem deixar um caminho ou uma direcção
talvez tu te perdesses do meu corpo
e eu ficasse a salvo do ardor do teu orgasmo
e da intensidade da sua convulsão.

E talvez se eu fosse outra e cedesse sem luta
e te intrigasse menos e te lambesse mais
sumisses para sempre e levasses contigo
o teu hálito nu e o meu pecado antigo
transcrito num código de ondas vaginais.

Como uma bandeira antiga

Guardámos a história nos poemas antigos
e o tempo corroeu-lhes as palavras.
Hoje falta-nos o sonho e a esperança
e a vontade de gritarmos
para os fazer voltar.

Vamos apenas engordando o silêncio
até que se esborrache contra a fachada dos prédios.
Dantes tínhamos medo e cantávamos.
Mas perdemos a voz na resignação diária
e nas coisas pequenas.

Podíamos dar as mãos
mas os braços, cruzados há tanto tempo,
entorpeceram demais para o fazer.
Sobra-nos um país desde sempre a meia-haste
sacudido pelo vento
como uma bandeira antiga.

Poema costurado

Somos roupa, amarrotada e rota
de tanto nos amarmos em delícias de algodão.
Só nos restam andrajos, palavras em fiapos,
para cobrirmos de trapos o silêncio.

E vamos assim, rasgando sorrisos,
trocando cumprimentos, tecendo ninharias.
Tão cheios de artifícios e frases bafientas
e remendos e bolas de naftalina.

(nós que nos vestimos, lavámos e sujámos com o corpo do outro)

Quanto queria poder dizer-te o que te disse,
desabotoar-te as palavras letra a letra
e com dedos de cetim saber cerzir-me,
coser-me, alinhavar-me para ainda te servir.

Mas vou apenas rendilhando versos
na seda fria da tua ausência despida
e pendurando ao vento as coisas que te calo
neste estendal do tempo que é a vida.

Piso descalça...

------------------Piso descalça
-------------este chão de estilhaços
-----------das promessas que quebrei
-------(sete anos de azar por cada espelho...)
-
tantas vezes me corto
------no amor em cacos
-----------reflectido
-----------------neste chão descalço
-------------------------do azar prometido

Olhos marinhos

Faz-me falta o teu corpo de papel
onde eu escrevia poemas
que eram só para ti.
Ainda são só teus os meus poemas.
Ainda é de papel o teu corpo.
Mas já não escrevo lá.

Faz-me falta o teu ombro
a abraçar-me as lágrimas
de quando eu chorava e molhava-te as mãos.

Faz-me falta a verdade do teu ronronar
nos tempos em que era verdade.

Faz-me falta o teu jeito de teres a certeza.
Faz-me falta o meu riso.
Faz-me falta a certeza de rir do teu riso
e de rires do meu jeito.

Fazem-me falta as nossas brincadeiras
e os nomes que inventávamos
e que eram apenas nossos.
Ainda temos alegria para brincar.
Ainda inventamos nomes.
Mas já não acreditamos.

Fazem-me falta os teus olhos.

Esta falta que me fazes
vem-me desse mundo inteiro dos teus olhos marinhos
que eu ainda visito
onde ainda me perco
onde estão todos os poemas que já foram
e todos os poemas que virão
e onde já não moro.

A cadeira vazia

O dia vai entrar pela janela da frente
silencioso como todas as manhãs
e virá sem pressa
atravessar a sala adormecida
e sentar-se na cadeira vazia
(a cadeira onde tu te sentavas).

E então farei o gesto repetido
(que se repete no tempo
como o nascer dos dias):
pouso a caneta
amarroto a folha
e atiro-a ao chão.

É assim que morro a minha vida
(esta vida de folhas atiradas
ao chão para morrerem):
a observar o dia na cadeira
sentado no teu lugar.

Procuro esse amor...

Procuro esse amor que não me tens
em todos os cantos de todas as casas
em todas as esquinas de todas as ruas
em cada lugar onde vou sem estar
procurar-te apenas.

E encontro a nossa história numa canção qualquer
como encontro a plenitude nos teus braços:
para logo, num instante, a voltar a perder.

Dilaceram-me o silêncio e o espaço que sobra
mas mais que a tua ausência
dói-me que a tenhas escolhido
como agora me magoam as palavras que te digo:
comedidas, prudentes, cautelosas.

Pesa-me o poema como um fardo
de coisas que não foram
e eu nem sei porquê...

Confissão

Letra a letra vou odiando as palavras
cada letra um pouco mais...
Talvez no fim fiquem apenas
o teclado empoeirado
as folhas brancas
a voz calada
e eu feliz
e livre.

Livre.

gente onde eram só conceitos
gestos em vez de verbos
e coerência
e coisas simples.

Simples.

Sonhos de toda a gente.
uma casa, um emprego,
um almoço de amigos,
uma tarde chuvosa, um sofá e o colo de alguém.

Alguém.

Um amor banal.
de coisas quotidianas
momentos previsíveis
e silêncios partilhados.

E aprender então, letra por letra
amores insossos
(alguém)
existências alienadas
(simples)
e o silêncio…
(livre)

Parto hoje...

Parto hoje à procura da certeza
por caminhos tortuosos e imorais.
Vou tentar o intentável, vou cair em tentação,
vou amar cada passante sabendo que te amo
para aprender que o amor é simples e és tu.

Deixarei que o teu nome se perca.
Vou pegar na lembrança, pô-la numa garrafa
e atirá-la ao mar.
Vou magoar-te e vou magoar-me
e neste impulso egoísta e masoquista vou perder-me...
até te encontrar.

«Mas espera-me!
por mais longos que sejam os caminhos
eu regresso».

Amor perfeito

Tens nas mãos serenas o gesto que me aquieta
e na voz a canção que me alivia.
És a minha paz possível, o sossego;
quando tudo é desacorde e eu desafino
no teu olhar tranquilo acho a calma
e nos teus braços encontro a harmonia.

Os teus olhos de lagoa são o meu porto,
a segurança, o reconforto.
És o meu consolo e o meu caminho
e é em ti que me escondo e é em ti que me encontro
quando me beijas a boca cheia de lágrimas
e me levas nos teus sonhos num sorriso.

Guardas no teu silêncio mais palavras que um poema
quando me embalas a alma com promessas mudas
e lês no meu olhar o que não escrevo.
És o meu rumo, o meu norte, o meu lugar,
a luz do meu lado negro em desespero
quando me abraças a ausência devagar.

Escondo-me em tudo...

Escondo-me em tudo para não me ver
no espelho implacável da minha vergonha.

Tudo me serve, me oculta, me encobre

um copo meio da metade vazia
onde bebi o remorso diluído

um sorriso rasgado com os dedos
que rasgaram a alma que não queria sorrir

um olhar trémulo no chão pisado
a fugir dos pés dos outros
e dos seus olhos...

Implacavelmente, como num espelho,
em tudo me encontro com a minha vergonha.

Doçuras

Com esse jeitinho pacato
e ar de quem não parte um prato
vens jogar à sedução
e eu vou dar-te um xeque-mate!
Saboreia o meu prazer,
mel, baunilha e limão
que eu sou toda chocolate…
O banquete está na mesa.
Começa tu a comer
que eu vou ter-te à sobremesa!

Vens suave, de mansinho,
cobertura de ternura
recheado de desejos...
Vou trincar-te rebuçado!
E entre gemidos e beijos
e carícias e abraços
vou levar-te ao pecado...
Solta, leve, livre e louca
vou possuir-te em pedaços
e vais morrer na minha boca...

A voz de Deus

E eu fugisse para junto do Poema
por uns tempos, por uma vida inteira
até à beira-mar da praia ensolarada
onde repousa Deus.

E passeasse junto às ondas que se quebram
rindo como o marulho do mar
e fosse, correndo nessa praia,
a criatura, a criação e a liberdade.

E me sentasse na areia molhada
com a cabeça apoiada nos joelhos abraçados
a ouvir muito mais que a voz do mar:
a voz de Deus a ler-me o meu Poema.

Quantas folhas brancas...

Quantas folhas brancas cantam o meu silêncio
em que procuro as palavras e elas fogem
escondendo-se entre linhas e entrelinhas
num caos de sintaxe e de semântica
que revolvo e que remexo
semi-muda, semi-louca
buscando frases que nunca chegam
e repetindo outras que só calada sei dizer.

Tirânicas palavras que eu indago e que me mentem
palavras moribundas, inventadas, descobertas
palavras ocas ou balofas ou fora do contexto
que misturo e desarrumo
para fugir à tortura e escapar ao medo
do silêncio branco que se esconde
neste mundo de papel onde sou Deus.

Já não regresso...

Já não regresso à sordidez do teu encontro
nem às trevas da luxúria no meu corpo;
já não retorno à mágoa auto-inflingida
e nem ao sonho
e nem à espera
e vou embora neste adeus sem despedida.

Sigo com os pássaros
arrastando as asas, a honra e a vergonha
e tropeçando ainda na saudade
da tua presença incerta
e do teu silêncio habilmente interrompido.

E por mais que me sangre a ferida aberta
parto rumo à tua ausência absoluta
no passo vacilante de quem foge
que o vazio é o meu sossego e o meu castigo
de te ter dado quase tudo.

E só não te prometo não voltar
para que saibas, desta vez,
que eu já não volto.

Sem sono

Aqui deitada nesta cama onde Te espero
embalo a vida que me deste sem saber
que eu a carrego e a aprendo e não a quero
que eu estou cansada, tão cansada de viver.

Nos braços negros do Teu silêncio pesado
adormecem os meus sonhos que abandono
sem crença no futuro, sem fé no passado,
sem esperança no que espero… e sem sono.

Fim de Verão

Sabe-me a mel o fim do Verão e a cerveja
e nas horas caladas desta madrugada
procuro as palavras nos cigarros acesos
para contar à solidão o sabor do teu olhar
– mas hoje não há palavras para mim
nem poemas que te tragam.

E nesta madrugada de horas adormecidas
em que a solidão calada me sorri
perscruto as palavras acesas nos poemas
que todavia não te trazem até mim…
– tudo o que tenho deste Verão que termina
é o sabor a mel e a cerveja.

Quando eu morrer...

Quando eu morrer talvez
passem os passantes com a mesma pressa
fira o sol com o mesmo raio a mesma pedra
e me ames ainda como na primeira vez
sofregamente nessa maneira tão tua
de me vestires de beijos na nudez.

Talvez, quando eu morrer
dancem as árvores indolentes ao som do mesmo vento
talvez se amem os amantes um momento
e imutável permaneça o teu sorriso.

Quero abraçar a morte no mesmo abraço
tocá-la e ver nela o traço
do teu rosto, do teu corpo que desejo
trocar com ela o teu beijo
longo, lento, quente
para sentir que ainda vivo
no verde maresia dos teus olhos
a afogar-me nos teus dedos, mar ardente

Sentir o teu calor quando morta, muda, fria.

17 de outubro de 2005

messias menino

Em ti cumprir-se-á o futuro de um mundo
que o tempo me leva
e na incerteza das horas que te aguardam
combato vontades muito maiores que eu.
Espero-te como quem escuta o fim de uma canção.

Por ti darão frutos as árvores e os ventres
e a voz dos pássaros trará a anunciada
do teu nome suspenso como o riso dos anjos
e serás o que há depois do amor.
Espero-te como quem chora a penúltima lágrima.

(sem título)

Rego a flor da tua Ausência
com as lágrimas esgotadas que não choro
e bóia eterno à superfície do Vazio
o nenúfar branco e pálido da Existência.

A criança afoga-se no rio...

Desprezei o passado e fugi do futuro
para cantar com voz de hoje canções de outrora
e conservo a candura das açucenas imaculadas
no velho cravo maduro.

As horas que passam estão paradas...

Divina seja a vida que me invade!
Estou seca e sem seiva e sobrevivo
a escrever em pergaminhos de Silêncio
os imutáveis murmúrios da Saudade.

O teu nome


Escrever-te porque o barco é longo e eu não tenho nada para fazer.

Escrever o teu cheiro na minha pele ou ela nele ou eu em ti. Escrever a eterna descoberta que é conhecer-te, cada vez mais fundo, mais dentro, como fazer amor ou deixar que o amor nos faça. Escrever os teus pêlos na minha boca como palavras. E a minha boca na tua. E falar em encaixes mecânicos que sabes melhor que eu. Escrever que me completas e divides, atrais e repeles, perdes e ganhas, invariavelmente.

Escrever o barco onde estou e a casa que devíamos ter para que eu estivesse lá. Escrever o quanto é bom voltar atrás e ver que tudo ainda é como era dantes. E que nunca mais vai ser como já foi. Escrever que o amor não muda mas se altera. Como a gente.

Escrever-te o que não entendes e o que sabes e o que eu não sei explicar ou compreender. Escrever o homem que és e a mulher que ainda não sou. E o contrário. E o que não importa. Escrever que o importante é estar e nem é estar és tu e nem és tu. Escrever o que é confuso e complicado e louco como não saber ser tua nem deixar de o ser. A minha vida desenhada de propósito para ser intermitente.

Escrever que queria. E às vezes ainda quero. E às vezes não. Escrever dentro de ti e ler-te o sangue para saber quem sou e o que escrevi. Escrever-te o corpo e a alma e o quanto corpo e alma são iguais e indiferentes e indissociáveis. Como vida e morte. Como o início e o fim da circunferência.
-
E escrever que o barco atraca. E escrever o fim do mundo. Para que não haja barcos e nem cartas e nem sobre o que escrever. Para que fique tão-somente a nossa essência trancada num orgasmo intemporal. O teu esperma em mim como o teu nome, gemido num eco milenar.