17 de outubro de 2005

O teu nome


Escrever-te porque o barco é longo e eu não tenho nada para fazer.

Escrever o teu cheiro na minha pele ou ela nele ou eu em ti. Escrever a eterna descoberta que é conhecer-te, cada vez mais fundo, mais dentro, como fazer amor ou deixar que o amor nos faça. Escrever os teus pêlos na minha boca como palavras. E a minha boca na tua. E falar em encaixes mecânicos que sabes melhor que eu. Escrever que me completas e divides, atrais e repeles, perdes e ganhas, invariavelmente.

Escrever o barco onde estou e a casa que devíamos ter para que eu estivesse lá. Escrever o quanto é bom voltar atrás e ver que tudo ainda é como era dantes. E que nunca mais vai ser como já foi. Escrever que o amor não muda mas se altera. Como a gente.

Escrever-te o que não entendes e o que sabes e o que eu não sei explicar ou compreender. Escrever o homem que és e a mulher que ainda não sou. E o contrário. E o que não importa. Escrever que o importante é estar e nem é estar és tu e nem és tu. Escrever o que é confuso e complicado e louco como não saber ser tua nem deixar de o ser. A minha vida desenhada de propósito para ser intermitente.

Escrever que queria. E às vezes ainda quero. E às vezes não. Escrever dentro de ti e ler-te o sangue para saber quem sou e o que escrevi. Escrever-te o corpo e a alma e o quanto corpo e alma são iguais e indiferentes e indissociáveis. Como vida e morte. Como o início e o fim da circunferência.
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E escrever que o barco atraca. E escrever o fim do mundo. Para que não haja barcos e nem cartas e nem sobre o que escrever. Para que fique tão-somente a nossa essência trancada num orgasmo intemporal. O teu esperma em mim como o teu nome, gemido num eco milenar.

2 comentários:

Gato Preto disse...

Que magnífica maneira de começar um blog.

Bem-vinda, Sherazade!

Que a noite tenha mil e um poemas.

Abraim Silva disse...

"...fazer amor ou deixar que o amor nos faça." Que linda forma de dizer ao mundo que sabes sentir amor. Um beijo, com a devida vénia.