16 de setembro de 2006

(sem título)

Os teus olhos. Como o princípio e o fim de todas as coisas. De letras redondas e bem desenhadas sobre as linhas. As linhas por onde eu ando, à procura da palavra. A que morava lá e se apagou.

Os teus olhos que às vezes observo, escrevinhando neles correcções a vermelho em maiúsculas gigantescas. Letra de professora. A deixar recados e lembretes na margem, com a caneta manchada de tinta e ressentimento. E coisas que não passam. Como o nosso olhar, chumbado, reprovado, a repetir o ano. O nosso olhar que já não sabe a palavra, esquecida como uma lição mal estudada.

E ainda assim, nos teus olhos, quase tudo. Como uma biografia onde me leio o princípio e o fim. Os teus olhos onde as pupilas inchavam como um sexo e se prometiam todos os pecados e todas as delícias. Aliciantes e incumpridas como são as promessas. Que o tudo é como a verdade: grande demais para me caber na boca.

Os teus olhos de maré que vem e de maré que vai. E de maré que foi e eu fiquei. Um barco na areia. Dois olhos. O horizonte.

Os teus olhos, graves como a voz, a enxugarem os meus. As minhas lágrimas como cobras enroladas num nó cego a entupirem-me a garganta e a envenenarem-me a alma. Lágrimas entrelaçadas como mãos dadas. Húmidas como corpos no suor desarrumado dos lençóis. Como a saliva dos teus beijos, o fervor das tuas mãos, a vontade molhada do meu sexo. No tempo em que o meu corpo era, aos teus olhos, pecados e delícias. O tempo das promessas. Da palavra. Da maré-cheia.

E eu a deitar-me sobre as linhas, encostada à margem, longe do nosso olhar (que se perdeu) e da palavra (que se esqueceu). A deixar cair as pálpebras num desenrolar de persiana para prender as lágrimas entre as grades das pestanas. A contemplar-te os olhos antes de te os desimpedir. Para que te desprendas. Para que me despeça. Maré-vem, maré-vai. Entre este impulso animal de te farejar o cheiro e te lamber os dedos e te suspirar gemidos ao ouvido; e a vontade humana, conscienciosa, de fazer o que é certo. E justo. E recto. À imagem de Alguém.

O princípio e o fim de todas as coisas. Um princípio. Um olhar que era nosso. A palavra. E um fim. Correcções a vermelho. Um barco na areia. Os teus olhos.

2 comentários:

firmina12 disse...

a noite tem todos os poemas dos meus sonhos

Abraim Silva disse...

Prefiro a prosa à poesia. Esta prosa é demasiado poética, demasiado filosófica. Dentro do mesmo estilo mas num registo diferente dos artigos que comentei anteriormente. Ainda assim gostei de algumas coisas. Dei particular valor à palavra "Alguém" escrita com letra grande: bem escolhida!