10 de janeiro de 2006

Somos

Somos como as plantas que se dão:
um ramo arrancado à espera da terra
a criar raízes num copo de água.

Somos os que ficam, os que fazem figas,
os que conservam os sonhos e nunca desistem,
os que estoicamente aprenderam a esperar
e se limitam a fazê-lo.

Somos o movimento de um evoluir inerte.
Os que vão, sem fome,
a trincar o tempo como se comessem
desinteressadamente
uma maçã.

Espero-te com a força do hábito
num desespero imperturbável
meu como a morte e como a morte
insuportavelmente paciente.

Porque sou dos que esperam,
entre a maldição, o dom e o desperdício,
nesta tristeza entediante
de ir ancorando a vida
com os meus próprios pés.

3 de dezembro de 2005

quase

E eu mais uma vez no mesmo sítio. Como andar ás voltas. Exactamente ali, nem um único milímetro mais á frente, no mesmo lugar. O meu lugar. Tão explorado e percorrido e exaustivamente analisado que eu julgava nunca mais ter de voltar. Mas volto. Vou. Fico. Incontornavelmente. Como ver o mundo pelos meus olhos. Ou senti-lo com o meu corpo.

Julgo que a culpa é do quase. Por não ser totalmente. Por desmaiar as cores dos quadros do meu cérebro até que eu já não as veja, descansada em tons pastel, e as acordar depois, num golpe assassino de pincel, dolorosamente vibrantes. Por se entranhar.

Porque há muito em mim que é quase. As coisas guardadas no limbo viscoso entre recordação e realidade. As mágoas de outros tempos quase ultrapassadas e o facto de quase não chorar pelas lágrimas que chorei quando ainda a mágoa não tinha quase passado. Os recomeços em que se deixam para trás promessas incumpridas e votos quebrados e quase se acredita numa nova primeira vez. A química avassaladora das sensações antigas, a vontade, a água na boca e o tornarmo-nos depois tão quase imunes ao seu apelo. As coisas de que quase não me lembro. Momentos, rostos, sabores, palavras. Trocas.

Porque a verdade é que as coisas que passam permanecem. E não falo em cicatrizes da alma ou em marcas do coração. Porque essas só enfeiam, não aleijam. Falo das coisas que ficam. Do rasto. Do resto. Das moinhas. Falo dos lugares. Dos fantasmas que vencemos toda a vida e que a mesma vida inteira nos assustam. Dos desejos satisfeitos mas nunca saciados. Das respostas eternamente incompletas por muito que façamos a pergunta. Ou que deixemos de a fazer.
O meu quase é a persistência das coisas a que renuncio.

6 de novembro de 2005

Enigma

Quando me quiseres encontrar
estou ali, no princípio da aliteração
guardada como um segredo
entre os versos sem rima
e as rimas sem razão

e quando me quiseres
não me aches, descobre-me
que eu permaneço ali
longa como um l de tanto te esperar
imóvel, entre o a e o i

e quando me encontrares
revelo-te o segredo,
sussurrando-te ao ouvido
num cintilar de brinco
sílabas ao contrário

e saberás onde tanto te esperei.

31 de outubro de 2005

Há tempos...

Há tempos reli os meus diários antigos.
Descobri que com o passar dos anos não me tornei nem mais sábia, nem mais forte, nem sequer mais prudente. Estou apenas mais triste.

18 de outubro de 2005

Pecado capital

Se eu não tivesse versos mas certezas
e tu não fosses perpendicular aos meus desejos
talvez não desenhasses com a língua
estranhas circunferências nos meus beijos
e as nossas vidas fossem paralelas.

Se eu pudesse trocar o nome de cada rua
sem deixar um caminho ou uma direcção
talvez tu te perdesses do meu corpo
e eu ficasse a salvo do ardor do teu orgasmo
e da intensidade da sua convulsão.

E talvez se eu fosse outra e cedesse sem luta
e te intrigasse menos e te lambesse mais
sumisses para sempre e levasses contigo
o teu hálito nu e o meu pecado antigo
transcrito num código de ondas vaginais.

Como uma bandeira antiga

Guardámos a história nos poemas antigos
e o tempo corroeu-lhes as palavras.
Hoje falta-nos o sonho e a esperança
e a vontade de gritarmos
para os fazer voltar.

Vamos apenas engordando o silêncio
até que se esborrache contra a fachada dos prédios.
Dantes tínhamos medo e cantávamos.
Mas perdemos a voz na resignação diária
e nas coisas pequenas.

Podíamos dar as mãos
mas os braços, cruzados há tanto tempo,
entorpeceram demais para o fazer.
Sobra-nos um país desde sempre a meia-haste
sacudido pelo vento
como uma bandeira antiga.

Poema costurado

Somos roupa, amarrotada e rota
de tanto nos amarmos em delícias de algodão.
Só nos restam andrajos, palavras em fiapos,
para cobrirmos de trapos o silêncio.

E vamos assim, rasgando sorrisos,
trocando cumprimentos, tecendo ninharias.
Tão cheios de artifícios e frases bafientas
e remendos e bolas de naftalina.

(nós que nos vestimos, lavámos e sujámos com o corpo do outro)

Quanto queria poder dizer-te o que te disse,
desabotoar-te as palavras letra a letra
e com dedos de cetim saber cerzir-me,
coser-me, alinhavar-me para ainda te servir.

Mas vou apenas rendilhando versos
na seda fria da tua ausência despida
e pendurando ao vento as coisas que te calo
neste estendal do tempo que é a vida.

Piso descalça...

------------------Piso descalça
-------------este chão de estilhaços
-----------das promessas que quebrei
-------(sete anos de azar por cada espelho...)
-
tantas vezes me corto
------no amor em cacos
-----------reflectido
-----------------neste chão descalço
-------------------------do azar prometido

Olhos marinhos

Faz-me falta o teu corpo de papel
onde eu escrevia poemas
que eram só para ti.
Ainda são só teus os meus poemas.
Ainda é de papel o teu corpo.
Mas já não escrevo lá.

Faz-me falta o teu ombro
a abraçar-me as lágrimas
de quando eu chorava e molhava-te as mãos.

Faz-me falta a verdade do teu ronronar
nos tempos em que era verdade.

Faz-me falta o teu jeito de teres a certeza.
Faz-me falta o meu riso.
Faz-me falta a certeza de rir do teu riso
e de rires do meu jeito.

Fazem-me falta as nossas brincadeiras
e os nomes que inventávamos
e que eram apenas nossos.
Ainda temos alegria para brincar.
Ainda inventamos nomes.
Mas já não acreditamos.

Fazem-me falta os teus olhos.

Esta falta que me fazes
vem-me desse mundo inteiro dos teus olhos marinhos
que eu ainda visito
onde ainda me perco
onde estão todos os poemas que já foram
e todos os poemas que virão
e onde já não moro.

A cadeira vazia

O dia vai entrar pela janela da frente
silencioso como todas as manhãs
e virá sem pressa
atravessar a sala adormecida
e sentar-se na cadeira vazia
(a cadeira onde tu te sentavas).

E então farei o gesto repetido
(que se repete no tempo
como o nascer dos dias):
pouso a caneta
amarroto a folha
e atiro-a ao chão.

É assim que morro a minha vida
(esta vida de folhas atiradas
ao chão para morrerem):
a observar o dia na cadeira
sentado no teu lugar.