... e aqui estou. Virada para dentro como um botão de rosa. Passaram por mim as estações, os pretendentes, os dias e os acontecimentos. Às vezes à velocidade brutal das coisas arrastadas pelas enxurradas. Outras, numa placidez exasperante de lagoa.
Aprendi a pertencer à tua ausência e a encontrar nela o reconforto de me sentir entregue. Como chegar a casa. És, sempre foste, o meu país. Todas as noites me enrosco no aconchego conhecido das fronteiras do teu corpo e adormeço ao ritmo constante da minha solidão que devolveste.
Às vezes espero que caias em ti (que é como quem diz, algures perto de mim). Outras penso nas portas fechadas que tranco todas as noites para que a vida não me entre pelos mais diversos orifícios. Penso se valerá a pena trancar-me assim; contigo, contra a tua vontade, num momento qualquer que já passou.
Mas perdi a esperança no bolso de umas calças que deixaram de me servir. Como se a mão de um gigante rasgasse o céu de repente e eu, à janela, descobrisse que tudo o que observo – as nuvens, o sol, o recorte dos prédios – não passa de um cenário. Posso (tenho de) aceitar que a realidade seja afinal apenas uma tela pintada. Mas onde se guarda a certeza enraizada, profundamente entranhada, de que o céu existe?
Fico aqui. A divagar-me em ti. A absorver-te. A desenhar-te em caracteres. À procura do timbre da tua voz por entre o ruído seco dos sonhos desfeitos pelo teu gesto insensato de menino do mundo. De me rasgar o céu.
Mas és o que importa. E fico, Penélope dos tempos modernos, a fazer e a desfazer palavras, à espera que um mar qualquer te devolva. Algum dia, algum deus trar-te-á de volta. E porque a vida é pequena demais, hei-de esperar-te com a alma que não tem morte nem pressa. Junto ao eco dos nomes. Na pureza genuína de sermos um do outro.
Até lá sigo por esta estrada mais longa que os caminhos. Gasta como as sandálias de Cristo. A deixar que a vida passe e que o presente arraste o passado pela frágil trela da determinação. Incerta e hesitante.
Sei que me esperam o colo e o consolo. A poesia das coisas simples. A origem da vida a contrair-se no meu sexo. O milagre do amor a crescer-me no ventre. Só por isso arranco à vontade cada passo, a ver-te atrás de mim sempre que olho para trás.
Porque só eu estou aqui. Com os dedos gastos de prazer e a memória gasta de lembranças e o coração atulhado de palavras e de sonhos. Gastos também. A vida está lá fora, a bater-me à porta.
Beijo-te uma última vez onde não estás. Abraço-te com a força dos planetas. E tomo balanço.
26 de outubro de 2007
17 de julho de 2007
Um estranho instrumento
Pareço inteira, resignada, ilesa e sossegada
e não passo de um ilusionista
serrado ao meio no centro de um palco.
Um pequeno truque de magia.
E danço no riso dos outros,
enleada à sua voz e aos seus movimentos,
banal como o nascer do dia
a erguer-se ligeiro no cimo dos prédios.
Uma parte de um todo.
Um naco, um pedaço, uma fatia.
Trago um buraco no ventre da alma,
fundo como uma cova,
onde conservo a queda e a vertigem
e a essência mesma da fractura.
Do despedaçamento.
E permaneço
à beira do penhasco
imperturbavelmente vertical.
Como uma estátua de pedra
que o mínimo gesto quebraria.
Sem passos nos meus pés.
Quando vieres,
se não tivermos medo,
talvez te mostre
este abismo de onde vêm as palavras
e me ensines a atravessá-lo sem cair.
Até lá remanesço
aparentemente inteira e intacta e conciliada
a consumir o vazio
e a fabricar palavras
como um estranho instrumento avariado.
e não passo de um ilusionista
serrado ao meio no centro de um palco.
Um pequeno truque de magia.
E danço no riso dos outros,
enleada à sua voz e aos seus movimentos,
banal como o nascer do dia
a erguer-se ligeiro no cimo dos prédios.
Uma parte de um todo.
Um naco, um pedaço, uma fatia.
Trago um buraco no ventre da alma,
fundo como uma cova,
onde conservo a queda e a vertigem
e a essência mesma da fractura.
Do despedaçamento.
E permaneço
à beira do penhasco
imperturbavelmente vertical.
Como uma estátua de pedra
que o mínimo gesto quebraria.
Sem passos nos meus pés.
Quando vieres,
se não tivermos medo,
talvez te mostre
este abismo de onde vêm as palavras
e me ensines a atravessá-lo sem cair.
Até lá remanesço
aparentemente inteira e intacta e conciliada
a consumir o vazio
e a fabricar palavras
como um estranho instrumento avariado.
15 de fevereiro de 2007
9 de fevereiro de 2007
Hoje...
Hoje entrego as armas e as letras das canções
e deixo-me abrir como janelas
que os amigos têm braços de algodão e brisa
e dedos como raios de sol.
Amanhã renasço.
Não das cinzas como a fénix
mas num pequeno ovo de andorinha.
E será finalmente Primavera.
e deixo-me abrir como janelas
que os amigos têm braços de algodão e brisa
e dedos como raios de sol.
Amanhã renasço.
Não das cinzas como a fénix
mas num pequeno ovo de andorinha.
E será finalmente Primavera.
17 de janeiro de 2007
Contar as horas
Contar as horas. Cada hora que passa e nos afasta. Mesmo quando sei que as horas que nos afastaram realmente já passaram há muito e não as contei. Porque o faz-de-conta me bastava. O teu disfarce. A minha ilusão.
Contar as horas, inimigas e aliadas, como um autómato. Entre movimentos repetidos, que cumpro como tarefas, e recordações. As que mais me magoam são as que mais vezes relembro. Aliadas e inimigas. Como as horas.
Lembrar-te em cada hora. Mais. Atormentar-me. A tristeza a vir ao mesmo tempo de dentro como um cancro e de fora como uma invasão. Uma tristeza física, que me macera o corpo inteiro, me corrói por dentro e me queima a pele. As lágrimas que não choro a correrem-me nas veias aos gorgolões. As que choro a caírem-me no colo. O meu corpo inteiro, água, sal e minerais. Este corpo que guardei à tua espera e que já não sabe nada além de te esperar.
A alma no chão. Esborrachada. Eu sem forças para a apanhar a deixá-la ficar, suja, destroçada, mendigante, à espera da tua mão para se levantar. A minha alma sem-abrigo, sem me caber no corpo, sem ti.
Algo me mata um pouco a cada minuto. A imensidão atroz da tua ausência, definitiva como a morte. A vergonha. A auto-comiseração. O peso insustentável da verdade, implacável, impiedosa, predadoramente feroz. A desilusão. A culpa. O ter de te deixar amar livremente, noutro amor que não o meu. O ter de. E sobretudo o teu amor feliz, fresco como as flores, carnal, intenso e leve. Que não me pertence.
Havia nos teus olhos um buraco fundo que o amor que me tinhas deixou quando se foi. A passar despercebido sob o manto invisível das mentiras, dos segredos, da sordidez misteriosa dos gestos calculados. Depois de desvendado fica apenas o buraco. Trago-o agora no peito, onde o coração bate como murros. O buraco de um amor que não existe a consolar o meu que, apesar de tudo, não consegue deixar de existir.
Conto portanto as horas. Certas. Disciplinadas. Seguras. E recordo. A carregar este amor sem destino como um cadáver às costas. Sem saber onde o pousar. Ou como. Ou para quê. Carrego-o apenas. Nesta covardia esperançosa que me impede de me fazer coveiro e nesta vontade, autónoma de mim, de morrer com ele. E poder deixar de contar horas. E de me lembrar de ti.
Contar as horas, inimigas e aliadas, como um autómato. Entre movimentos repetidos, que cumpro como tarefas, e recordações. As que mais me magoam são as que mais vezes relembro. Aliadas e inimigas. Como as horas.
Lembrar-te em cada hora. Mais. Atormentar-me. A tristeza a vir ao mesmo tempo de dentro como um cancro e de fora como uma invasão. Uma tristeza física, que me macera o corpo inteiro, me corrói por dentro e me queima a pele. As lágrimas que não choro a correrem-me nas veias aos gorgolões. As que choro a caírem-me no colo. O meu corpo inteiro, água, sal e minerais. Este corpo que guardei à tua espera e que já não sabe nada além de te esperar.
A alma no chão. Esborrachada. Eu sem forças para a apanhar a deixá-la ficar, suja, destroçada, mendigante, à espera da tua mão para se levantar. A minha alma sem-abrigo, sem me caber no corpo, sem ti.
Algo me mata um pouco a cada minuto. A imensidão atroz da tua ausência, definitiva como a morte. A vergonha. A auto-comiseração. O peso insustentável da verdade, implacável, impiedosa, predadoramente feroz. A desilusão. A culpa. O ter de te deixar amar livremente, noutro amor que não o meu. O ter de. E sobretudo o teu amor feliz, fresco como as flores, carnal, intenso e leve. Que não me pertence.
Havia nos teus olhos um buraco fundo que o amor que me tinhas deixou quando se foi. A passar despercebido sob o manto invisível das mentiras, dos segredos, da sordidez misteriosa dos gestos calculados. Depois de desvendado fica apenas o buraco. Trago-o agora no peito, onde o coração bate como murros. O buraco de um amor que não existe a consolar o meu que, apesar de tudo, não consegue deixar de existir.
Conto portanto as horas. Certas. Disciplinadas. Seguras. E recordo. A carregar este amor sem destino como um cadáver às costas. Sem saber onde o pousar. Ou como. Ou para quê. Carrego-o apenas. Nesta covardia esperançosa que me impede de me fazer coveiro e nesta vontade, autónoma de mim, de morrer com ele. E poder deixar de contar horas. E de me lembrar de ti.
16 de setembro de 2006
(sem título)
Os teus olhos. Como o princípio e o fim de todas as coisas. De letras redondas e bem desenhadas sobre as linhas. As linhas por onde eu ando, à procura da palavra. A que morava lá e se apagou.
Os teus olhos que às vezes observo, escrevinhando neles correcções a vermelho em maiúsculas gigantescas. Letra de professora. A deixar recados e lembretes na margem, com a caneta manchada de tinta e ressentimento. E coisas que não passam. Como o nosso olhar, chumbado, reprovado, a repetir o ano. O nosso olhar que já não sabe a palavra, esquecida como uma lição mal estudada.
E ainda assim, nos teus olhos, quase tudo. Como uma biografia onde me leio o princípio e o fim. Os teus olhos onde as pupilas inchavam como um sexo e se prometiam todos os pecados e todas as delícias. Aliciantes e incumpridas como são as promessas. Que o tudo é como a verdade: grande demais para me caber na boca.
Os teus olhos de maré que vem e de maré que vai. E de maré que foi e eu fiquei. Um barco na areia. Dois olhos. O horizonte.
Os teus olhos, graves como a voz, a enxugarem os meus. As minhas lágrimas como cobras enroladas num nó cego a entupirem-me a garganta e a envenenarem-me a alma. Lágrimas entrelaçadas como mãos dadas. Húmidas como corpos no suor desarrumado dos lençóis. Como a saliva dos teus beijos, o fervor das tuas mãos, a vontade molhada do meu sexo. No tempo em que o meu corpo era, aos teus olhos, pecados e delícias. O tempo das promessas. Da palavra. Da maré-cheia.
E eu a deitar-me sobre as linhas, encostada à margem, longe do nosso olhar (que se perdeu) e da palavra (que se esqueceu). A deixar cair as pálpebras num desenrolar de persiana para prender as lágrimas entre as grades das pestanas. A contemplar-te os olhos antes de te os desimpedir. Para que te desprendas. Para que me despeça. Maré-vem, maré-vai. Entre este impulso animal de te farejar o cheiro e te lamber os dedos e te suspirar gemidos ao ouvido; e a vontade humana, conscienciosa, de fazer o que é certo. E justo. E recto. À imagem de Alguém.
O princípio e o fim de todas as coisas. Um princípio. Um olhar que era nosso. A palavra. E um fim. Correcções a vermelho. Um barco na areia. Os teus olhos.
Os teus olhos que às vezes observo, escrevinhando neles correcções a vermelho em maiúsculas gigantescas. Letra de professora. A deixar recados e lembretes na margem, com a caneta manchada de tinta e ressentimento. E coisas que não passam. Como o nosso olhar, chumbado, reprovado, a repetir o ano. O nosso olhar que já não sabe a palavra, esquecida como uma lição mal estudada.
E ainda assim, nos teus olhos, quase tudo. Como uma biografia onde me leio o princípio e o fim. Os teus olhos onde as pupilas inchavam como um sexo e se prometiam todos os pecados e todas as delícias. Aliciantes e incumpridas como são as promessas. Que o tudo é como a verdade: grande demais para me caber na boca.
Os teus olhos de maré que vem e de maré que vai. E de maré que foi e eu fiquei. Um barco na areia. Dois olhos. O horizonte.
Os teus olhos, graves como a voz, a enxugarem os meus. As minhas lágrimas como cobras enroladas num nó cego a entupirem-me a garganta e a envenenarem-me a alma. Lágrimas entrelaçadas como mãos dadas. Húmidas como corpos no suor desarrumado dos lençóis. Como a saliva dos teus beijos, o fervor das tuas mãos, a vontade molhada do meu sexo. No tempo em que o meu corpo era, aos teus olhos, pecados e delícias. O tempo das promessas. Da palavra. Da maré-cheia.
E eu a deitar-me sobre as linhas, encostada à margem, longe do nosso olhar (que se perdeu) e da palavra (que se esqueceu). A deixar cair as pálpebras num desenrolar de persiana para prender as lágrimas entre as grades das pestanas. A contemplar-te os olhos antes de te os desimpedir. Para que te desprendas. Para que me despeça. Maré-vem, maré-vai. Entre este impulso animal de te farejar o cheiro e te lamber os dedos e te suspirar gemidos ao ouvido; e a vontade humana, conscienciosa, de fazer o que é certo. E justo. E recto. À imagem de Alguém.
O princípio e o fim de todas as coisas. Um princípio. Um olhar que era nosso. A palavra. E um fim. Correcções a vermelho. Um barco na areia. Os teus olhos.
29 de julho de 2006
Reina nos meus dias...
Reina nos meus dias a densidade surda dos espelhos
na qual em cada dia se reflecte o outro.
Nela me acho
e perco
e em mil reflexos sou
e torno a ser.
E ponho-me à janela a ver passar o tempo
viscoso como as horas
pegajoso e lento
e tento
comandar exércitos
construir muralhas
determinar os deuses e as leis
que calem o silêncio dos meus pensamentos.
Mas nada vence o ser-se
além talvez do sonho.
E eu sonho
que um dia o verbo ser embata contra um espelho
e se reparta, dividindo em mil pedaços
mil possibilidades
mil hipóteses de existência
o ser-se o que se é que reina nos meus dias.
na qual em cada dia se reflecte o outro.
Nela me acho
e perco
e em mil reflexos sou
e torno a ser.
E ponho-me à janela a ver passar o tempo
viscoso como as horas
pegajoso e lento
e tento
comandar exércitos
construir muralhas
determinar os deuses e as leis
que calem o silêncio dos meus pensamentos.
Mas nada vence o ser-se
além talvez do sonho.
E eu sonho
que um dia o verbo ser embata contra um espelho
e se reparta, dividindo em mil pedaços
mil possibilidades
mil hipóteses de existência
o ser-se o que se é que reina nos meus dias.
De mãos vazias
Trago nos ombros o peso dos teus beijos
de canela, ruído e maçapão
e nada além do peso tenho desses beijos
incertos, confusos, voláteis
feitos de ausência e de recordação.
Mas chegas.
E apesar de tudo
dou um jeitinho e encosto-me
para te dar um espacinho na minha solidão.
É tudo quanto tenho para te dar.
E mostro-te
os ombros nus em carne viva dos teus beijos,
as mãos feitas areia e alvoroço
a segurarem em concha
a vontade de me abrir como uma flor,
e o medo
de que te vás alargando nesse espaço que te dei
e eu nessa solidão roubada que era minha
já não tenha lugar.
E explico-te
que a minha solidão sozinha a cavalo nos meus ombros
onde pousaste o peso dos teus beijos
é só o que possuo para dar a quem vier.
E tu vens de mãos vazias.
de canela, ruído e maçapão
e nada além do peso tenho desses beijos
incertos, confusos, voláteis
feitos de ausência e de recordação.
Mas chegas.
E apesar de tudo
dou um jeitinho e encosto-me
para te dar um espacinho na minha solidão.
É tudo quanto tenho para te dar.
E mostro-te
os ombros nus em carne viva dos teus beijos,
as mãos feitas areia e alvoroço
a segurarem em concha
a vontade de me abrir como uma flor,
e o medo
de que te vás alargando nesse espaço que te dei
e eu nessa solidão roubada que era minha
já não tenha lugar.
E explico-te
que a minha solidão sozinha a cavalo nos meus ombros
onde pousaste o peso dos teus beijos
é só o que possuo para dar a quem vier.
E tu vens de mãos vazias.
28 de maio de 2006
Sem dedos
O mal do coração é não ter dedos.
Se os tivesse, a mágoa não teria de passar pelo cérebro. Nem pelos olhos. Ser-te-ia entregue cada arranhão, cada nódoa-negra, cada amolgadura e eu não precisaria de ir à procura das palavras que me doem só para te poupar o esforço de as encontrares sozinho.
Espero-te por hábito, placidamente. Num mundo de instantes que faço permanecer, na falta de saber o que mais fazer com eles. Numa incerteza de esboço, mais que preparada e nunca pronta, como as viagens excessivamente planeadas. E se ainda acredito é porque aprendi a ver em ti para lá dos gestos, das palavras e dos resultados. A semente e não o fruto. Mas sobram-me demasiados momentos. Em que não te basto e não me chegas, que o mal do verbo dar são as armadilhas do termo retribuir.
Ainda assim adormeço nos teus braços esta noite. Fechada como uma caixa, onde tudo se guarda, se confunde, se esconde. Onde tudo fica mas nem tudo cabe.
Acorda-me amanhã devagarinho. Quente e brando como um dia de Verão. E quando tiveres de abrir a tampa, fá-lo com cuidado porque terás de a abrir com mãos. Que o mal do coração é não ter dedos.
Se os tivesse, a mágoa não teria de passar pelo cérebro. Nem pelos olhos. Ser-te-ia entregue cada arranhão, cada nódoa-negra, cada amolgadura e eu não precisaria de ir à procura das palavras que me doem só para te poupar o esforço de as encontrares sozinho.
Espero-te por hábito, placidamente. Num mundo de instantes que faço permanecer, na falta de saber o que mais fazer com eles. Numa incerteza de esboço, mais que preparada e nunca pronta, como as viagens excessivamente planeadas. E se ainda acredito é porque aprendi a ver em ti para lá dos gestos, das palavras e dos resultados. A semente e não o fruto. Mas sobram-me demasiados momentos. Em que não te basto e não me chegas, que o mal do verbo dar são as armadilhas do termo retribuir.
Ainda assim adormeço nos teus braços esta noite. Fechada como uma caixa, onde tudo se guarda, se confunde, se esconde. Onde tudo fica mas nem tudo cabe.
Acorda-me amanhã devagarinho. Quente e brando como um dia de Verão. E quando tiveres de abrir a tampa, fá-lo com cuidado porque terás de a abrir com mãos. Que o mal do coração é não ter dedos.
16 de março de 2006
Como uma estrada
Ele fala e finge e foge. E desvia-se. Atravessa-me como a uma estrada. A cortar caminho. Sem se preocupar com o sinais vermelhos. Sem os ver.
Eu tenho a voz carregada de poeira e de alcatrão. E as palavras importantes soterradas sob o asfalto morno deste faz-de-conta. E multas por cobrar.
Do lado esquerdo da via, em excesso de velocidade, vem um coração pesado de mercadorias que, numa guinada, quase o atropela. Só quase. Nem sequer o suficiente para o assustar. Que ele desvia-se sempre a tempo. E foge e finge e fala.
Deixo-me estar deitada, muito quieta. A estrada que ele atravessa.
Eu tenho a voz carregada de poeira e de alcatrão. E as palavras importantes soterradas sob o asfalto morno deste faz-de-conta. E multas por cobrar.
Do lado esquerdo da via, em excesso de velocidade, vem um coração pesado de mercadorias que, numa guinada, quase o atropela. Só quase. Nem sequer o suficiente para o assustar. Que ele desvia-se sempre a tempo. E foge e finge e fala.
Deixo-me estar deitada, muito quieta. A estrada que ele atravessa.
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