I
Ele pergunta-me o que fiz, onde andei, o que tenho par contar. Somas. Lugares. Momentos. E eu não quero dizer: “Pedro, não sei”. Porque ele vai responder-me que o tempo também passa quando não gastamos.
II
Somos um compêndio de palavras. Sabemos dizê-las e usá-las. Vendê-las quando é preciso. E às vezes dá-las apenas. Como um presente invisível.
O que eu sei fazer com as minhas mãos é muito pouco. E deveria conhecer muitas mais coisas. Saber muitas mais palavras. E o que significam.
Mas sei fazer conjuntos com as palavras que conheço. Arrumá-las como gavetas, ordenadas e lógicas. Conjugá-las e fazê-las condizer, como um designer de moda às peças de roupa. Construir edifícios inteiros, com as palavras empilhadas como tijolos, certas e consistentes. E morar lá.
Somos o que somos por causa das nossas palavras. E cada palavra nossa é um pedaço de vida que escrevemos.
(As que não dizemos em voz alta e que formam os nossos pensamentos. As que guardamos porque foram importantes (mesmo que a razão de ser já não o seja). As que usamos todos os dias, repetidas, gastas, socialmente aceites, obrigatórias. As que oferecemos, com um sorriso, um toque no ombro ou um piscar de olhos - as mais deliciosas. As que mentimos porque são fáceis e as que procuramos porque são verdade. As que escolhemos não dizer e ficam ali, a pairar-nos nos olhos e no silêncio.)
III
Quando ele me perguntar, hei-de dizer-lhe das palavras. Da minha soberba pelas que sei e da minha vergonha pelas que finjo saber. Das que atiro como pedras e das não dou porque não tenho tempo ou paciência. Das que gasto porque não digo, à espera de um momento que nunca sei qual é e nunca vem, desperdiçadas em mim - as mais tristes.
E hei-de dizer-lhe que as amei, a quase todas. E que morri a procurar as que melhor diziam a verdade.
Espero que isso baste para que ele me abra a porta.
2 de março de 2010
25 de novembro de 2009
Penélope
Sou como toda a gente. Um somatório de candura e cicatrizes, esperança e desilusão. Coisas banais, medos e defeitos. Feita da costela de Adão, ADN e pó de estrelas.
Tenho no sangue esta teimosia de ser árvore em vez de pássaro. De ficar. Mesmo quando chega o Inverno e os ninhos se abandonam nos galhos. Na dignidade inabalável das coisas imóveis. Ainda que no chão macio das folhas caídas haja pés que pisam e mãos que recolhem.
Aprendi a absorver a ausência e a preenchê-la de coisas supérfluas. A não ligar. A conhecer os sintomas do desassossego – dúvida, angústia, revolta – e deixá-los penetrar-me as narinas num cheiro forte a resina até se dissolverem na corrente sanguínea. A esperar sem desespero. Sem pressa. No tempo das árvores.
Também tenho dias tristes. E noites brancas de insónia, ansiedade e espaço a mais na cama. Mas tenho tardes mornas de flanela e chá com mel. Retalhos da manta de Penélope. E a certeza absoluta que tudo é volúvel. E mais vale estar quieta. Num (no) lugar certo.
Por isso, se te quiseres ir embora, lembra-te que tenho no sangue a seiva das árvores. E o hábito enraizado de não ceder às tempestades. E que aprendi o tempo e a impassibilidade das coisas que ficam mas sei pouco de jornadas. E de rotas. E de geografia.
E que mesmo que vás, eu fico. À espera. Do fim do Inverno e do regresso dos pássaros.
Tenho no sangue esta teimosia de ser árvore em vez de pássaro. De ficar. Mesmo quando chega o Inverno e os ninhos se abandonam nos galhos. Na dignidade inabalável das coisas imóveis. Ainda que no chão macio das folhas caídas haja pés que pisam e mãos que recolhem.
Aprendi a absorver a ausência e a preenchê-la de coisas supérfluas. A não ligar. A conhecer os sintomas do desassossego – dúvida, angústia, revolta – e deixá-los penetrar-me as narinas num cheiro forte a resina até se dissolverem na corrente sanguínea. A esperar sem desespero. Sem pressa. No tempo das árvores.
Também tenho dias tristes. E noites brancas de insónia, ansiedade e espaço a mais na cama. Mas tenho tardes mornas de flanela e chá com mel. Retalhos da manta de Penélope. E a certeza absoluta que tudo é volúvel. E mais vale estar quieta. Num (no) lugar certo.
Por isso, se te quiseres ir embora, lembra-te que tenho no sangue a seiva das árvores. E o hábito enraizado de não ceder às tempestades. E que aprendi o tempo e a impassibilidade das coisas que ficam mas sei pouco de jornadas. E de rotas. E de geografia.
E que mesmo que vás, eu fico. À espera. Do fim do Inverno e do regresso dos pássaros.
6 de abril de 2009
Cantiga
Dou-te o riso e as sardas do rosto
os meus gestos, os meus beijos
o seu ritmo e o seu gosto.
Dou-me inteira e aos pedaços
os meus pés e os meus passos
para que tracemos juntos
em pegadas na areia
um caminho partilhado.
Tu navio. Eu sereia.
Dou-te o cargo, o ofício, o posto
de meu dono e camarada
e o ventre, o colo, o encosto
e a minha pele salgada.
Sei que é pouco para te dar
(letras, falências e mágoa)
mas queria ter-te a cantar.
Tu meu universo de água.
Eu tua estrela-do-mar.
os meus gestos, os meus beijos
o seu ritmo e o seu gosto.
Dou-me inteira e aos pedaços
os meus pés e os meus passos
para que tracemos juntos
em pegadas na areia
um caminho partilhado.
Tu navio. Eu sereia.
Dou-te o cargo, o ofício, o posto
de meu dono e camarada
e o ventre, o colo, o encosto
e a minha pele salgada.
Sei que é pouco para te dar
(letras, falências e mágoa)
mas queria ter-te a cantar.
Tu meu universo de água.
Eu tua estrela-do-mar.
16 de março de 2009
Ele elo ela
Há talvez um tempo para as coisas e uma vontade de o ir apressando. Ou um desejo velado de estar mais à frente e a incerteza inconfessa sobre o ritmo a seguir. Segredo e movimento.
(há entre ambos qualquer coisa que não se vê. Ou vê-se entre eles qualquer coisa que não há)
É um chão de coisas quebradas e um tecto a cair. É o céu aberto. Sol luz aragem. E quatro pés descalços sobre capim fresco e flores. Lugares. Impressões.
(é a certeza do solo pisado – que é apenas um. Por muitos que sejam os pontos de vista)
Um faz-de-conta. Um conta quem faz.
E somam-se os passos. Caminhos e ligações.
(há entre ambos qualquer coisa que não se vê. Ou vê-se entre eles qualquer coisa que não há)
É um chão de coisas quebradas e um tecto a cair. É o céu aberto. Sol luz aragem. E quatro pés descalços sobre capim fresco e flores. Lugares. Impressões.
(é a certeza do solo pisado – que é apenas um. Por muitos que sejam os pontos de vista)
Um faz-de-conta. Um conta quem faz.
E somam-se os passos. Caminhos e ligações.
11 de outubro de 2008
Prelúdio
Um dia destes digo-te
que há nas tuas mãos propriedades químicas
que me adubam a pele com poderosas especiarias
e eu feita pasto e prado e plantio
floresço irrigada de sémen e saliva
e algo em mim desabrocha.
E que ambiciono beijar-te em lugares desconhecidos
com nomes complicados
onde a tua pele é odorífera
e lamber-te os dedos até matar a fome
alheia às lições de anatomia
a encher de sede o teu umbigo.
E hei-de sussurrar-te confidências
falar em simbiose e metafísica
e talvez até contar-te
que às vezes
ao mordiscar-te o lóbulo da orelha
rezo-te ao coração para que me leve
por entre esses olhos de dilúvio
dentro de uma arca de Noé.
que há nas tuas mãos propriedades químicas
que me adubam a pele com poderosas especiarias
e eu feita pasto e prado e plantio
floresço irrigada de sémen e saliva
e algo em mim desabrocha.
E que ambiciono beijar-te em lugares desconhecidos
com nomes complicados
onde a tua pele é odorífera
e lamber-te os dedos até matar a fome
alheia às lições de anatomia
a encher de sede o teu umbigo.
E hei-de sussurrar-te confidências
falar em simbiose e metafísica
e talvez até contar-te
que às vezes
ao mordiscar-te o lóbulo da orelha
rezo-te ao coração para que me leve
por entre esses olhos de dilúvio
dentro de uma arca de Noé.
6 de agosto de 2008
(Re)capitulação
Sempre gostei de espaço. Do meu lugar. Redondo e sossegado (um berlinde no chão, um planeta no universo) a girar ao meu ritmo e à minha velocidade. Como gosto de tempo. O meu tempo. Quieto, circular, fraccionado em durações determinadas (o tempo de um cigarro, de uma música, de um programa de televisão).
A liberdade é, para mim, essa serenidade de estar placidamente no colo da alma. Longe de escolhas, actos e consequências, críticos e conselheiros, segredos e juízos de valor. Como passar a noite sozinho, no quarto de hotel de um país desconhecido, com o do not disturb pendurado na porta.
Entraste na minha vida sem me invadires o espaço, sem me cobrares que me encostasse um pouco para poderes caber, sem me obrigares a quebrar o silêncio e a povoá-lo de vozes estridentes e diálogos inúteis.
Longínquo. Geograficamente inatingível. Sem qualquer transtorno ou consequência. O meu dia-a-dia a manter-se seguro e imutável. O teu também.
E pediste-me apenas que me sentasse junto ao teu silêncio e te desse a mão. Porque a morte tinha guardado em ti uma ausência mais profunda que qualquer palavra. Que ficasse perto enquanto estivesses perto.
E o amor veio, paulatino e simples, num engatinhar de criança. A esconder-se atrás de um beijo de “até manhã”. A espreguiçar-se ao acordar, entre a tua mão e o meu seio. A sorrir, divertido, quando imitávamos com ar semi-sério os guiões dos filmes (i love you more). A adormecer no teu pescoço, por entre a confusão dos meus cabelos, depois de feito (no vão das tuas escadas, numa pensão barata, num carro emprestado, no meio da rua).
Sempre acreditei que me passasses. Quando te foste embora, tinha a certeza que depois da mágoa, da dor de corno e do orgulho ferido, da saudade e da solidão, viriam o sossego e a indiferença. E que outro qualquer ocuparia o teu lugar.
Porque hoje entendo. Que um dia cresceste e eu não estava lá. Para te ver. Para aprender as mudanças, as novas circunstâncias, as razões, os sonhos e os objectivos. Que o teu amor tinha de pertencer a quem fizesse parte do teu mundo. E eu não fazia.
Compreendo hoje que não tens culpa, que eu não tenho culpa, que ninguém tem. Mesmo se às vezes te culpo (pela falta de carácter, pela longa e demorada e amplamente extensa dissimulação). E me culpo (por não ser, por não ter sido, por não ter culpa).
São estas as palavras que tenho para te dizer e não te digo quando às vezes ligas e trocamos banalidades sobre coisas triviais.
Que se o mundo fosse redondo como a íris dos olhos, serias a luz. Toda e qualquer forma de iluminação. Da mais científica e eficaz fonte de energia ao brilho delicado de um simples pirilampo.
E que sem ti estou bem mas às escuras.
E que só tenho pena, muita pena, que não passes.
A liberdade é, para mim, essa serenidade de estar placidamente no colo da alma. Longe de escolhas, actos e consequências, críticos e conselheiros, segredos e juízos de valor. Como passar a noite sozinho, no quarto de hotel de um país desconhecido, com o do not disturb pendurado na porta.
Entraste na minha vida sem me invadires o espaço, sem me cobrares que me encostasse um pouco para poderes caber, sem me obrigares a quebrar o silêncio e a povoá-lo de vozes estridentes e diálogos inúteis.
Longínquo. Geograficamente inatingível. Sem qualquer transtorno ou consequência. O meu dia-a-dia a manter-se seguro e imutável. O teu também.
E pediste-me apenas que me sentasse junto ao teu silêncio e te desse a mão. Porque a morte tinha guardado em ti uma ausência mais profunda que qualquer palavra. Que ficasse perto enquanto estivesses perto.
E o amor veio, paulatino e simples, num engatinhar de criança. A esconder-se atrás de um beijo de “até manhã”. A espreguiçar-se ao acordar, entre a tua mão e o meu seio. A sorrir, divertido, quando imitávamos com ar semi-sério os guiões dos filmes (i love you more). A adormecer no teu pescoço, por entre a confusão dos meus cabelos, depois de feito (no vão das tuas escadas, numa pensão barata, num carro emprestado, no meio da rua).
Sempre acreditei que me passasses. Quando te foste embora, tinha a certeza que depois da mágoa, da dor de corno e do orgulho ferido, da saudade e da solidão, viriam o sossego e a indiferença. E que outro qualquer ocuparia o teu lugar.
Porque hoje entendo. Que um dia cresceste e eu não estava lá. Para te ver. Para aprender as mudanças, as novas circunstâncias, as razões, os sonhos e os objectivos. Que o teu amor tinha de pertencer a quem fizesse parte do teu mundo. E eu não fazia.
Compreendo hoje que não tens culpa, que eu não tenho culpa, que ninguém tem. Mesmo se às vezes te culpo (pela falta de carácter, pela longa e demorada e amplamente extensa dissimulação). E me culpo (por não ser, por não ter sido, por não ter culpa).
São estas as palavras que tenho para te dizer e não te digo quando às vezes ligas e trocamos banalidades sobre coisas triviais.
Que se o mundo fosse redondo como a íris dos olhos, serias a luz. Toda e qualquer forma de iluminação. Da mais científica e eficaz fonte de energia ao brilho delicado de um simples pirilampo.
E que sem ti estou bem mas às escuras.
E que só tenho pena, muita pena, que não passes.
3 de julho de 2008
Legado
Tinha sempre orgulho naquilo que eu escrevesse, por mais que lhe faltasse método ou poesia. Hoje nada me parece suficiente para lhe dar. Amava-me inteiramente e o que tenho para dizer nunca estará à altura de um amor assim.
Ensinou-me a acreditar na palavra. A admirá-la. A respeitá-la. Porque sou feita de desapego, presunção e cobardia. E coisas pequenas.
As palavras aprendidas permanecem em mim. Como os tesouros dos navios no fundo do mar. Encalhadas. Tudo o mais que sou eu é precário, instável, temporário. Momentos fragmentados a transitar no limbo de um presente que não pesa. Que é um cesto vazio que o ontem esgotou e que o amanhã há-de preencher. Uma consequência directa do facto de existir.
Só as letras se me prendem às mãos por fios intrincados de marioneta. Simples e fáceis de seguir como um rasto de migalhas. Imprescindíveis como os homens que lutam toda a vida.
Explicou-me o amor pelas coisas verdadeiras. Como a poesia, a honra, a História. E a palavra irmão. E descubro que há lições que não esqueço: a arte de encostar a solidão à lombada de um livro, como quem apoia uma bengala à parede, e seguir devagarinho pelas páginas, liberta de ser eu por umas horas. Admirar mais quem dá, do que quem vende. Ver o lado bom. Acreditar.
Mas não tinha medida. Amava demasiado e sempre mais. As ideias e as pessoas e os ideais. Sem limites, nem regras. Irreflectido e cru.
No fim sobrou-lhe tempo. Um excesso de dias solitários que os gestos antigos não escoavam. O silêncio e a ausência. Ininterruptos, sufocantes e dolorosamente presentes. Eu nunca tinha tempo para o tempo que ele tinha. Ele importava-se mas não dizia nada. Ou contava uma piada. Ou desconversava. E sabíamos os dois.
Quando se foi embora, sei que levava na alma a musicalidade do meu riso de criança. E o cheiro da terra. E que tinha os bolsos cheios de histórias e canções. E a boca tinta de vinho, conversas e alegria. E uns dedos em falta, de tanto moldar sonhos com as mãos.
Fico. E todas as manhãs despertam em mim como uma aposta. Sem lhe dizer adeus ou desculpa ou obrigada. Que amar talvez seja isso: nunca dizer com a boca. Com as recordações e as palavras. Os restos da vida. O importante.
E, às vezes, quando as frases que tenho não me bastam, vou à cabra-cega pelo quintal da memória, tentar agarrar com os braços estendidos um resquício da voz conhecida. E lembro-me, novamente, do caminho. É esse o seu legado.
Ensinou-me a acreditar na palavra. A admirá-la. A respeitá-la. Porque sou feita de desapego, presunção e cobardia. E coisas pequenas.
As palavras aprendidas permanecem em mim. Como os tesouros dos navios no fundo do mar. Encalhadas. Tudo o mais que sou eu é precário, instável, temporário. Momentos fragmentados a transitar no limbo de um presente que não pesa. Que é um cesto vazio que o ontem esgotou e que o amanhã há-de preencher. Uma consequência directa do facto de existir.
Só as letras se me prendem às mãos por fios intrincados de marioneta. Simples e fáceis de seguir como um rasto de migalhas. Imprescindíveis como os homens que lutam toda a vida.
Explicou-me o amor pelas coisas verdadeiras. Como a poesia, a honra, a História. E a palavra irmão. E descubro que há lições que não esqueço: a arte de encostar a solidão à lombada de um livro, como quem apoia uma bengala à parede, e seguir devagarinho pelas páginas, liberta de ser eu por umas horas. Admirar mais quem dá, do que quem vende. Ver o lado bom. Acreditar.
Mas não tinha medida. Amava demasiado e sempre mais. As ideias e as pessoas e os ideais. Sem limites, nem regras. Irreflectido e cru.
No fim sobrou-lhe tempo. Um excesso de dias solitários que os gestos antigos não escoavam. O silêncio e a ausência. Ininterruptos, sufocantes e dolorosamente presentes. Eu nunca tinha tempo para o tempo que ele tinha. Ele importava-se mas não dizia nada. Ou contava uma piada. Ou desconversava. E sabíamos os dois.
Quando se foi embora, sei que levava na alma a musicalidade do meu riso de criança. E o cheiro da terra. E que tinha os bolsos cheios de histórias e canções. E a boca tinta de vinho, conversas e alegria. E uns dedos em falta, de tanto moldar sonhos com as mãos.
Fico. E todas as manhãs despertam em mim como uma aposta. Sem lhe dizer adeus ou desculpa ou obrigada. Que amar talvez seja isso: nunca dizer com a boca. Com as recordações e as palavras. Os restos da vida. O importante.
E, às vezes, quando as frases que tenho não me bastam, vou à cabra-cega pelo quintal da memória, tentar agarrar com os braços estendidos um resquício da voz conhecida. E lembro-me, novamente, do caminho. É esse o seu legado.
23 de maio de 2008
Mas
Haverá ainda algo que não te disse? Mudará alguma coisa se encontrar essas palavras e tas trouxer?
Devia despir o verbo (ficar perseverar sofrer esperar) e dar o que de mim ficasse a descoberto. Porque morro amanhã. E será um pecado e um desperdício entregar um terreno baldio onde nada se ergueu ou plantou. Um punhado de areia. Uma cerca. E o verbo.
O mundo inteiro diz-me que já não há palavras. E eu acredito. Mas. Mudaria alguma coisa se as houvesse?
Devia despir o verbo (ficar perseverar sofrer esperar) e dar o que de mim ficasse a descoberto. Porque morro amanhã. E será um pecado e um desperdício entregar um terreno baldio onde nada se ergueu ou plantou. Um punhado de areia. Uma cerca. E o verbo.
O mundo inteiro diz-me que já não há palavras. E eu acredito. Mas. Mudaria alguma coisa se as houvesse?
10 de abril de 2008
Better half
De repente as letras ficam turvas, os dedos perdem o gesto e algo em mim se dissipa. E só o coração permanece. A tentar decifrar no enevoado das páginas, com os seus olhos rasgados por punhais e cicatrizes, a fórmula mágica de um feitiço de amor. Um encantamento simples, sem pós de perlimpimpim ou poções milagrosas, que torne a fazer das letras as palavras perdidas e reponha nos meus dedos os gestos esquecidos.
Talvez se o teu corpo fosse de barro e não de carne e osso, o meu pudesse ser feito de pele e matéria permeável. E o amor seria algo que faríamos, sem que fosse necessário invocá-lo por um qualquer ritual de sortilégios.
Mas metade de mim ainda não está aqui. Metade de mim tem agora asas de pássaro e presas de lobo e escamas de peixe hermeticamente impenetráveis. E já não acredita em caras-metade e em “para sempre(s)”. O resto sou eu. A mastigar o medo e a derrota na tristeza calada dos dedos roídos. A escrever devaneios e saudades. Coisas que não existem.
Por isso, quando vieres para me amar, não me tragas promessas. Porque é deste chão de promessas estilhaçadas que brota a cada dia o veneno acre da desolação. Espera apenas que eu adormeça. E grita para dentro dos meus sonhos que o meu corpo todo é uma planície e o teu coração um peregrino.
Que eu hei-de acordar com mãos de mulher e virtudes de feiticeira. Para te desenhar a pele com os gestos reencontrados de doçura e volúpia. E te sussurrar ao ouvido as palavras inteiras enfim desvendadas, como o mapa secreto de um tesouro escondido. Que o segredo do amor é ter quatro braços, quatro pernas, duas bocas, duas vozes, dois corações. O de ser ao dobro e não ao meio. E ser melhor assim.
Talvez se o teu corpo fosse de barro e não de carne e osso, o meu pudesse ser feito de pele e matéria permeável. E o amor seria algo que faríamos, sem que fosse necessário invocá-lo por um qualquer ritual de sortilégios.
Mas metade de mim ainda não está aqui. Metade de mim tem agora asas de pássaro e presas de lobo e escamas de peixe hermeticamente impenetráveis. E já não acredita em caras-metade e em “para sempre(s)”. O resto sou eu. A mastigar o medo e a derrota na tristeza calada dos dedos roídos. A escrever devaneios e saudades. Coisas que não existem.
Por isso, quando vieres para me amar, não me tragas promessas. Porque é deste chão de promessas estilhaçadas que brota a cada dia o veneno acre da desolação. Espera apenas que eu adormeça. E grita para dentro dos meus sonhos que o meu corpo todo é uma planície e o teu coração um peregrino.
Que eu hei-de acordar com mãos de mulher e virtudes de feiticeira. Para te desenhar a pele com os gestos reencontrados de doçura e volúpia. E te sussurrar ao ouvido as palavras inteiras enfim desvendadas, como o mapa secreto de um tesouro escondido. Que o segredo do amor é ter quatro braços, quatro pernas, duas bocas, duas vozes, dois corações. O de ser ao dobro e não ao meio. E ser melhor assim.
26 de fevereiro de 2008
Uma história para contar
Invariavelmente retorno aqui. Comecei por vir à tua procura. Depois à nossa. Agora move-me somente a solidão constante de não me sentir melhor em nenhum outro lugar.
Tenho nas mãos apenas uma história, que monto e desmonto como um jogo de leggos. Uma história que eu não queria ter para contar. Que fala de coisas tristes como a perda e de outras, mais tristes ainda, como a resignação. Eu queria contar uma história de amor. De um amor simples e fácil como as contas de somar e leve como um papagaio colorido de papel. Ao invés trago nos dedos as páginas desfolhadas da desilusão. Pouso-as aqui para que passem, não como um contágio mas como uma transfusão.
E assim regresso, sistematicamente. Com um ramo de flores nos braços e a determinação obstinada de não chorar. Mesmo quando o vento sopra todas as canções e as memórias, de mãos dadas, se põem a dançar à minha volta. Mesmo quando tenho de fechar os olhos com toda a força. Mesmo quando nada me alivia e tenho a alma às grades como uma gaiola vazia. Aprendi a ser também os meus fantasmas. E a voltar aqui.
Subo portanto sozinha a este palco de mármore e basto-me. E sofro porque me basto nesta quietude de túmulo entre o estar além da vida e o ainda andar por cá. Desapaixonadamente imune e indiferente. No desinteresse predador do vampiro a quem os outros só importam na medida em que constituam alimento. Um desapego que enfeitiça e subjuga e cativa como quem conquista territórios. Mas nunca aceito as oferendas que me colocam aos pés. O que não tiro, nego, que receber é como dar: uma forma de amor.
E represento por esta história afora, sobre as lajes e os tectos dos mortos, dos vivos e dos assim-assim, os infelizes e os solitários. Os que perderam. Ariane, Teseu, o Minotauro e mais que todos os outros, numa solidão mais funda, mais arreigada, ingénita, o labirinto. De pedra e pó e passagens sem destino. Deliberadamente intransponível, ondulante e indecifrável. Às mãos de Dédalo ou de Deus. Às minhas mãos.
Por isso não me procurem caminhos, que eu não posso passar. Chame-me o amor absoluto. Chame-me o poema mais triste. Chamem-me as promessas felizes, as esperanças e os amanhãs. Não os oiço. E não avanço. Algures entre o não querer e o não ser capaz.
E é assim que invariavelmente me deixo estar aqui, placidamente atormentada. Por entre os meandros amargurados desta história sem enredo, sem personagens, sem desfecho. Uma história sobre já não se ter nada para contar.
Tenho nas mãos apenas uma história, que monto e desmonto como um jogo de leggos. Uma história que eu não queria ter para contar. Que fala de coisas tristes como a perda e de outras, mais tristes ainda, como a resignação. Eu queria contar uma história de amor. De um amor simples e fácil como as contas de somar e leve como um papagaio colorido de papel. Ao invés trago nos dedos as páginas desfolhadas da desilusão. Pouso-as aqui para que passem, não como um contágio mas como uma transfusão.
E assim regresso, sistematicamente. Com um ramo de flores nos braços e a determinação obstinada de não chorar. Mesmo quando o vento sopra todas as canções e as memórias, de mãos dadas, se põem a dançar à minha volta. Mesmo quando tenho de fechar os olhos com toda a força. Mesmo quando nada me alivia e tenho a alma às grades como uma gaiola vazia. Aprendi a ser também os meus fantasmas. E a voltar aqui.
Subo portanto sozinha a este palco de mármore e basto-me. E sofro porque me basto nesta quietude de túmulo entre o estar além da vida e o ainda andar por cá. Desapaixonadamente imune e indiferente. No desinteresse predador do vampiro a quem os outros só importam na medida em que constituam alimento. Um desapego que enfeitiça e subjuga e cativa como quem conquista territórios. Mas nunca aceito as oferendas que me colocam aos pés. O que não tiro, nego, que receber é como dar: uma forma de amor.
E represento por esta história afora, sobre as lajes e os tectos dos mortos, dos vivos e dos assim-assim, os infelizes e os solitários. Os que perderam. Ariane, Teseu, o Minotauro e mais que todos os outros, numa solidão mais funda, mais arreigada, ingénita, o labirinto. De pedra e pó e passagens sem destino. Deliberadamente intransponível, ondulante e indecifrável. Às mãos de Dédalo ou de Deus. Às minhas mãos.
Por isso não me procurem caminhos, que eu não posso passar. Chame-me o amor absoluto. Chame-me o poema mais triste. Chamem-me as promessas felizes, as esperanças e os amanhãs. Não os oiço. E não avanço. Algures entre o não querer e o não ser capaz.
E é assim que invariavelmente me deixo estar aqui, placidamente atormentada. Por entre os meandros amargurados desta história sem enredo, sem personagens, sem desfecho. Uma história sobre já não se ter nada para contar.
31 de dezembro de 2007
A um amor prometido
Devagar aproxima-te o sopro dos dias
e as noites desvendam-te, despindo-te os traços.
Guio-te os passos pela rota dos sonhos
construindo no peito, de volúpia e esperança,
um ninho de folhas e de fé
e de cabelos soltos como asas.
E ensaio a voz para o teu nome.
Traz-me as flores que a vida te deitou no chão da alma
e o olhar franco e o riso fácil
e a força certa e digna das árvores antigas.
E ensina-me a ser em vez de estar.
Que eu tenho para te dar
o céu lilás e púrpura dos anoiteceres serenos,
as histórias secretas dos livros imaginários
e a transparência labiríntica das palavras.
E juntos descobriremos
a Terra Prometida
no toque da brisa no corpo do outro.
e as noites desvendam-te, despindo-te os traços.
Guio-te os passos pela rota dos sonhos
construindo no peito, de volúpia e esperança,
um ninho de folhas e de fé
e de cabelos soltos como asas.
E ensaio a voz para o teu nome.
Traz-me as flores que a vida te deitou no chão da alma
e o olhar franco e o riso fácil
e a força certa e digna das árvores antigas.
E ensina-me a ser em vez de estar.
Que eu tenho para te dar
o céu lilás e púrpura dos anoiteceres serenos,
as histórias secretas dos livros imaginários
e a transparência labiríntica das palavras.
E juntos descobriremos
a Terra Prometida
no toque da brisa no corpo do outro.
26 de outubro de 2007
Balanço
... e aqui estou. Virada para dentro como um botão de rosa. Passaram por mim as estações, os pretendentes, os dias e os acontecimentos. Às vezes à velocidade brutal das coisas arrastadas pelas enxurradas. Outras, numa placidez exasperante de lagoa.
Aprendi a pertencer à tua ausência e a encontrar nela o reconforto de me sentir entregue. Como chegar a casa. És, sempre foste, o meu país. Todas as noites me enrosco no aconchego conhecido das fronteiras do teu corpo e adormeço ao ritmo constante da minha solidão que devolveste.
Às vezes espero que caias em ti (que é como quem diz, algures perto de mim). Outras penso nas portas fechadas que tranco todas as noites para que a vida não me entre pelos mais diversos orifícios. Penso se valerá a pena trancar-me assim; contigo, contra a tua vontade, num momento qualquer que já passou.
Mas perdi a esperança no bolso de umas calças que deixaram de me servir. Como se a mão de um gigante rasgasse o céu de repente e eu, à janela, descobrisse que tudo o que observo – as nuvens, o sol, o recorte dos prédios – não passa de um cenário. Posso (tenho de) aceitar que a realidade seja afinal apenas uma tela pintada. Mas onde se guarda a certeza enraizada, profundamente entranhada, de que o céu existe?
Fico aqui. A divagar-me em ti. A absorver-te. A desenhar-te em caracteres. À procura do timbre da tua voz por entre o ruído seco dos sonhos desfeitos pelo teu gesto insensato de menino do mundo. De me rasgar o céu.
Mas és o que importa. E fico, Penélope dos tempos modernos, a fazer e a desfazer palavras, à espera que um mar qualquer te devolva. Algum dia, algum deus trar-te-á de volta. E porque a vida é pequena demais, hei-de esperar-te com a alma que não tem morte nem pressa. Junto ao eco dos nomes. Na pureza genuína de sermos um do outro.
Até lá sigo por esta estrada mais longa que os caminhos. Gasta como as sandálias de Cristo. A deixar que a vida passe e que o presente arraste o passado pela frágil trela da determinação. Incerta e hesitante.
Sei que me esperam o colo e o consolo. A poesia das coisas simples. A origem da vida a contrair-se no meu sexo. O milagre do amor a crescer-me no ventre. Só por isso arranco à vontade cada passo, a ver-te atrás de mim sempre que olho para trás.
Porque só eu estou aqui. Com os dedos gastos de prazer e a memória gasta de lembranças e o coração atulhado de palavras e de sonhos. Gastos também. A vida está lá fora, a bater-me à porta.
Beijo-te uma última vez onde não estás. Abraço-te com a força dos planetas. E tomo balanço.
Aprendi a pertencer à tua ausência e a encontrar nela o reconforto de me sentir entregue. Como chegar a casa. És, sempre foste, o meu país. Todas as noites me enrosco no aconchego conhecido das fronteiras do teu corpo e adormeço ao ritmo constante da minha solidão que devolveste.
Às vezes espero que caias em ti (que é como quem diz, algures perto de mim). Outras penso nas portas fechadas que tranco todas as noites para que a vida não me entre pelos mais diversos orifícios. Penso se valerá a pena trancar-me assim; contigo, contra a tua vontade, num momento qualquer que já passou.
Mas perdi a esperança no bolso de umas calças que deixaram de me servir. Como se a mão de um gigante rasgasse o céu de repente e eu, à janela, descobrisse que tudo o que observo – as nuvens, o sol, o recorte dos prédios – não passa de um cenário. Posso (tenho de) aceitar que a realidade seja afinal apenas uma tela pintada. Mas onde se guarda a certeza enraizada, profundamente entranhada, de que o céu existe?
Fico aqui. A divagar-me em ti. A absorver-te. A desenhar-te em caracteres. À procura do timbre da tua voz por entre o ruído seco dos sonhos desfeitos pelo teu gesto insensato de menino do mundo. De me rasgar o céu.
Mas és o que importa. E fico, Penélope dos tempos modernos, a fazer e a desfazer palavras, à espera que um mar qualquer te devolva. Algum dia, algum deus trar-te-á de volta. E porque a vida é pequena demais, hei-de esperar-te com a alma que não tem morte nem pressa. Junto ao eco dos nomes. Na pureza genuína de sermos um do outro.
Até lá sigo por esta estrada mais longa que os caminhos. Gasta como as sandálias de Cristo. A deixar que a vida passe e que o presente arraste o passado pela frágil trela da determinação. Incerta e hesitante.
Sei que me esperam o colo e o consolo. A poesia das coisas simples. A origem da vida a contrair-se no meu sexo. O milagre do amor a crescer-me no ventre. Só por isso arranco à vontade cada passo, a ver-te atrás de mim sempre que olho para trás.
Porque só eu estou aqui. Com os dedos gastos de prazer e a memória gasta de lembranças e o coração atulhado de palavras e de sonhos. Gastos também. A vida está lá fora, a bater-me à porta.
Beijo-te uma última vez onde não estás. Abraço-te com a força dos planetas. E tomo balanço.
17 de julho de 2007
Um estranho instrumento
Pareço inteira, resignada, ilesa e sossegada
e não passo de um ilusionista
serrado ao meio no centro de um palco.
Um pequeno truque de magia.
E danço no riso dos outros,
enleada à sua voz e aos seus movimentos,
banal como o nascer do dia
a erguer-se ligeiro no cimo dos prédios.
Uma parte de um todo.
Um naco, um pedaço, uma fatia.
Trago um buraco no ventre da alma,
fundo como uma cova,
onde conservo a queda e a vertigem
e a essência mesma da fractura.
Do despedaçamento.
E permaneço
à beira do penhasco
imperturbavelmente vertical.
Como uma estátua de pedra
que o mínimo gesto quebraria.
Sem passos nos meus pés.
Quando vieres,
se não tivermos medo,
talvez te mostre
este abismo de onde vêm as palavras
e me ensines a atravessá-lo sem cair.
Até lá remanesço
aparentemente inteira e intacta e conciliada
a consumir o vazio
e a fabricar palavras
como um estranho instrumento avariado.
e não passo de um ilusionista
serrado ao meio no centro de um palco.
Um pequeno truque de magia.
E danço no riso dos outros,
enleada à sua voz e aos seus movimentos,
banal como o nascer do dia
a erguer-se ligeiro no cimo dos prédios.
Uma parte de um todo.
Um naco, um pedaço, uma fatia.
Trago um buraco no ventre da alma,
fundo como uma cova,
onde conservo a queda e a vertigem
e a essência mesma da fractura.
Do despedaçamento.
E permaneço
à beira do penhasco
imperturbavelmente vertical.
Como uma estátua de pedra
que o mínimo gesto quebraria.
Sem passos nos meus pés.
Quando vieres,
se não tivermos medo,
talvez te mostre
este abismo de onde vêm as palavras
e me ensines a atravessá-lo sem cair.
Até lá remanesço
aparentemente inteira e intacta e conciliada
a consumir o vazio
e a fabricar palavras
como um estranho instrumento avariado.
15 de fevereiro de 2007
9 de fevereiro de 2007
Hoje...
Hoje entrego as armas e as letras das canções
e deixo-me abrir como janelas
que os amigos têm braços de algodão e brisa
e dedos como raios de sol.
Amanhã renasço.
Não das cinzas como a fénix
mas num pequeno ovo de andorinha.
E será finalmente Primavera.
e deixo-me abrir como janelas
que os amigos têm braços de algodão e brisa
e dedos como raios de sol.
Amanhã renasço.
Não das cinzas como a fénix
mas num pequeno ovo de andorinha.
E será finalmente Primavera.
17 de janeiro de 2007
Contar as horas
Contar as horas. Cada hora que passa e nos afasta. Mesmo quando sei que as horas que nos afastaram realmente já passaram há muito e não as contei. Porque o faz-de-conta me bastava. O teu disfarce. A minha ilusão.
Contar as horas, inimigas e aliadas, como um autómato. Entre movimentos repetidos, que cumpro como tarefas, e recordações. As que mais me magoam são as que mais vezes relembro. Aliadas e inimigas. Como as horas.
Lembrar-te em cada hora. Mais. Atormentar-me. A tristeza a vir ao mesmo tempo de dentro como um cancro e de fora como uma invasão. Uma tristeza física, que me macera o corpo inteiro, me corrói por dentro e me queima a pele. As lágrimas que não choro a correrem-me nas veias aos gorgolões. As que choro a caírem-me no colo. O meu corpo inteiro, água, sal e minerais. Este corpo que guardei à tua espera e que já não sabe nada além de te esperar.
A alma no chão. Esborrachada. Eu sem forças para a apanhar a deixá-la ficar, suja, destroçada, mendigante, à espera da tua mão para se levantar. A minha alma sem-abrigo, sem me caber no corpo, sem ti.
Algo me mata um pouco a cada minuto. A imensidão atroz da tua ausência, definitiva como a morte. A vergonha. A auto-comiseração. O peso insustentável da verdade, implacável, impiedosa, predadoramente feroz. A desilusão. A culpa. O ter de te deixar amar livremente, noutro amor que não o meu. O ter de. E sobretudo o teu amor feliz, fresco como as flores, carnal, intenso e leve. Que não me pertence.
Havia nos teus olhos um buraco fundo que o amor que me tinhas deixou quando se foi. A passar despercebido sob o manto invisível das mentiras, dos segredos, da sordidez misteriosa dos gestos calculados. Depois de desvendado fica apenas o buraco. Trago-o agora no peito, onde o coração bate como murros. O buraco de um amor que não existe a consolar o meu que, apesar de tudo, não consegue deixar de existir.
Conto portanto as horas. Certas. Disciplinadas. Seguras. E recordo. A carregar este amor sem destino como um cadáver às costas. Sem saber onde o pousar. Ou como. Ou para quê. Carrego-o apenas. Nesta covardia esperançosa que me impede de me fazer coveiro e nesta vontade, autónoma de mim, de morrer com ele. E poder deixar de contar horas. E de me lembrar de ti.
Contar as horas, inimigas e aliadas, como um autómato. Entre movimentos repetidos, que cumpro como tarefas, e recordações. As que mais me magoam são as que mais vezes relembro. Aliadas e inimigas. Como as horas.
Lembrar-te em cada hora. Mais. Atormentar-me. A tristeza a vir ao mesmo tempo de dentro como um cancro e de fora como uma invasão. Uma tristeza física, que me macera o corpo inteiro, me corrói por dentro e me queima a pele. As lágrimas que não choro a correrem-me nas veias aos gorgolões. As que choro a caírem-me no colo. O meu corpo inteiro, água, sal e minerais. Este corpo que guardei à tua espera e que já não sabe nada além de te esperar.
A alma no chão. Esborrachada. Eu sem forças para a apanhar a deixá-la ficar, suja, destroçada, mendigante, à espera da tua mão para se levantar. A minha alma sem-abrigo, sem me caber no corpo, sem ti.
Algo me mata um pouco a cada minuto. A imensidão atroz da tua ausência, definitiva como a morte. A vergonha. A auto-comiseração. O peso insustentável da verdade, implacável, impiedosa, predadoramente feroz. A desilusão. A culpa. O ter de te deixar amar livremente, noutro amor que não o meu. O ter de. E sobretudo o teu amor feliz, fresco como as flores, carnal, intenso e leve. Que não me pertence.
Havia nos teus olhos um buraco fundo que o amor que me tinhas deixou quando se foi. A passar despercebido sob o manto invisível das mentiras, dos segredos, da sordidez misteriosa dos gestos calculados. Depois de desvendado fica apenas o buraco. Trago-o agora no peito, onde o coração bate como murros. O buraco de um amor que não existe a consolar o meu que, apesar de tudo, não consegue deixar de existir.
Conto portanto as horas. Certas. Disciplinadas. Seguras. E recordo. A carregar este amor sem destino como um cadáver às costas. Sem saber onde o pousar. Ou como. Ou para quê. Carrego-o apenas. Nesta covardia esperançosa que me impede de me fazer coveiro e nesta vontade, autónoma de mim, de morrer com ele. E poder deixar de contar horas. E de me lembrar de ti.
16 de setembro de 2006
(sem título)
Os teus olhos. Como o princípio e o fim de todas as coisas. De letras redondas e bem desenhadas sobre as linhas. As linhas por onde eu ando, à procura da palavra. A que morava lá e se apagou.
Os teus olhos que às vezes observo, escrevinhando neles correcções a vermelho em maiúsculas gigantescas. Letra de professora. A deixar recados e lembretes na margem, com a caneta manchada de tinta e ressentimento. E coisas que não passam. Como o nosso olhar, chumbado, reprovado, a repetir o ano. O nosso olhar que já não sabe a palavra, esquecida como uma lição mal estudada.
E ainda assim, nos teus olhos, quase tudo. Como uma biografia onde me leio o princípio e o fim. Os teus olhos onde as pupilas inchavam como um sexo e se prometiam todos os pecados e todas as delícias. Aliciantes e incumpridas como são as promessas. Que o tudo é como a verdade: grande demais para me caber na boca.
Os teus olhos de maré que vem e de maré que vai. E de maré que foi e eu fiquei. Um barco na areia. Dois olhos. O horizonte.
Os teus olhos, graves como a voz, a enxugarem os meus. As minhas lágrimas como cobras enroladas num nó cego a entupirem-me a garganta e a envenenarem-me a alma. Lágrimas entrelaçadas como mãos dadas. Húmidas como corpos no suor desarrumado dos lençóis. Como a saliva dos teus beijos, o fervor das tuas mãos, a vontade molhada do meu sexo. No tempo em que o meu corpo era, aos teus olhos, pecados e delícias. O tempo das promessas. Da palavra. Da maré-cheia.
E eu a deitar-me sobre as linhas, encostada à margem, longe do nosso olhar (que se perdeu) e da palavra (que se esqueceu). A deixar cair as pálpebras num desenrolar de persiana para prender as lágrimas entre as grades das pestanas. A contemplar-te os olhos antes de te os desimpedir. Para que te desprendas. Para que me despeça. Maré-vem, maré-vai. Entre este impulso animal de te farejar o cheiro e te lamber os dedos e te suspirar gemidos ao ouvido; e a vontade humana, conscienciosa, de fazer o que é certo. E justo. E recto. À imagem de Alguém.
O princípio e o fim de todas as coisas. Um princípio. Um olhar que era nosso. A palavra. E um fim. Correcções a vermelho. Um barco na areia. Os teus olhos.
Os teus olhos que às vezes observo, escrevinhando neles correcções a vermelho em maiúsculas gigantescas. Letra de professora. A deixar recados e lembretes na margem, com a caneta manchada de tinta e ressentimento. E coisas que não passam. Como o nosso olhar, chumbado, reprovado, a repetir o ano. O nosso olhar que já não sabe a palavra, esquecida como uma lição mal estudada.
E ainda assim, nos teus olhos, quase tudo. Como uma biografia onde me leio o princípio e o fim. Os teus olhos onde as pupilas inchavam como um sexo e se prometiam todos os pecados e todas as delícias. Aliciantes e incumpridas como são as promessas. Que o tudo é como a verdade: grande demais para me caber na boca.
Os teus olhos de maré que vem e de maré que vai. E de maré que foi e eu fiquei. Um barco na areia. Dois olhos. O horizonte.
Os teus olhos, graves como a voz, a enxugarem os meus. As minhas lágrimas como cobras enroladas num nó cego a entupirem-me a garganta e a envenenarem-me a alma. Lágrimas entrelaçadas como mãos dadas. Húmidas como corpos no suor desarrumado dos lençóis. Como a saliva dos teus beijos, o fervor das tuas mãos, a vontade molhada do meu sexo. No tempo em que o meu corpo era, aos teus olhos, pecados e delícias. O tempo das promessas. Da palavra. Da maré-cheia.
E eu a deitar-me sobre as linhas, encostada à margem, longe do nosso olhar (que se perdeu) e da palavra (que se esqueceu). A deixar cair as pálpebras num desenrolar de persiana para prender as lágrimas entre as grades das pestanas. A contemplar-te os olhos antes de te os desimpedir. Para que te desprendas. Para que me despeça. Maré-vem, maré-vai. Entre este impulso animal de te farejar o cheiro e te lamber os dedos e te suspirar gemidos ao ouvido; e a vontade humana, conscienciosa, de fazer o que é certo. E justo. E recto. À imagem de Alguém.
O princípio e o fim de todas as coisas. Um princípio. Um olhar que era nosso. A palavra. E um fim. Correcções a vermelho. Um barco na areia. Os teus olhos.
29 de julho de 2006
Reina nos meus dias...
Reina nos meus dias a densidade surda dos espelhos
na qual em cada dia se reflecte o outro.
Nela me acho
e perco
e em mil reflexos sou
e torno a ser.
E ponho-me à janela a ver passar o tempo
viscoso como as horas
pegajoso e lento
e tento
comandar exércitos
construir muralhas
determinar os deuses e as leis
que calem o silêncio dos meus pensamentos.
Mas nada vence o ser-se
além talvez do sonho.
E eu sonho
que um dia o verbo ser embata contra um espelho
e se reparta, dividindo em mil pedaços
mil possibilidades
mil hipóteses de existência
o ser-se o que se é que reina nos meus dias.
na qual em cada dia se reflecte o outro.
Nela me acho
e perco
e em mil reflexos sou
e torno a ser.
E ponho-me à janela a ver passar o tempo
viscoso como as horas
pegajoso e lento
e tento
comandar exércitos
construir muralhas
determinar os deuses e as leis
que calem o silêncio dos meus pensamentos.
Mas nada vence o ser-se
além talvez do sonho.
E eu sonho
que um dia o verbo ser embata contra um espelho
e se reparta, dividindo em mil pedaços
mil possibilidades
mil hipóteses de existência
o ser-se o que se é que reina nos meus dias.
De mãos vazias
Trago nos ombros o peso dos teus beijos
de canela, ruído e maçapão
e nada além do peso tenho desses beijos
incertos, confusos, voláteis
feitos de ausência e de recordação.
Mas chegas.
E apesar de tudo
dou um jeitinho e encosto-me
para te dar um espacinho na minha solidão.
É tudo quanto tenho para te dar.
E mostro-te
os ombros nus em carne viva dos teus beijos,
as mãos feitas areia e alvoroço
a segurarem em concha
a vontade de me abrir como uma flor,
e o medo
de que te vás alargando nesse espaço que te dei
e eu nessa solidão roubada que era minha
já não tenha lugar.
E explico-te
que a minha solidão sozinha a cavalo nos meus ombros
onde pousaste o peso dos teus beijos
é só o que possuo para dar a quem vier.
E tu vens de mãos vazias.
de canela, ruído e maçapão
e nada além do peso tenho desses beijos
incertos, confusos, voláteis
feitos de ausência e de recordação.
Mas chegas.
E apesar de tudo
dou um jeitinho e encosto-me
para te dar um espacinho na minha solidão.
É tudo quanto tenho para te dar.
E mostro-te
os ombros nus em carne viva dos teus beijos,
as mãos feitas areia e alvoroço
a segurarem em concha
a vontade de me abrir como uma flor,
e o medo
de que te vás alargando nesse espaço que te dei
e eu nessa solidão roubada que era minha
já não tenha lugar.
E explico-te
que a minha solidão sozinha a cavalo nos meus ombros
onde pousaste o peso dos teus beijos
é só o que possuo para dar a quem vier.
E tu vens de mãos vazias.
28 de maio de 2006
Sem dedos
O mal do coração é não ter dedos.
Se os tivesse, a mágoa não teria de passar pelo cérebro. Nem pelos olhos. Ser-te-ia entregue cada arranhão, cada nódoa-negra, cada amolgadura e eu não precisaria de ir à procura das palavras que me doem só para te poupar o esforço de as encontrares sozinho.
Espero-te por hábito, placidamente. Num mundo de instantes que faço permanecer, na falta de saber o que mais fazer com eles. Numa incerteza de esboço, mais que preparada e nunca pronta, como as viagens excessivamente planeadas. E se ainda acredito é porque aprendi a ver em ti para lá dos gestos, das palavras e dos resultados. A semente e não o fruto. Mas sobram-me demasiados momentos. Em que não te basto e não me chegas, que o mal do verbo dar são as armadilhas do termo retribuir.
Ainda assim adormeço nos teus braços esta noite. Fechada como uma caixa, onde tudo se guarda, se confunde, se esconde. Onde tudo fica mas nem tudo cabe.
Acorda-me amanhã devagarinho. Quente e brando como um dia de Verão. E quando tiveres de abrir a tampa, fá-lo com cuidado porque terás de a abrir com mãos. Que o mal do coração é não ter dedos.
Se os tivesse, a mágoa não teria de passar pelo cérebro. Nem pelos olhos. Ser-te-ia entregue cada arranhão, cada nódoa-negra, cada amolgadura e eu não precisaria de ir à procura das palavras que me doem só para te poupar o esforço de as encontrares sozinho.
Espero-te por hábito, placidamente. Num mundo de instantes que faço permanecer, na falta de saber o que mais fazer com eles. Numa incerteza de esboço, mais que preparada e nunca pronta, como as viagens excessivamente planeadas. E se ainda acredito é porque aprendi a ver em ti para lá dos gestos, das palavras e dos resultados. A semente e não o fruto. Mas sobram-me demasiados momentos. Em que não te basto e não me chegas, que o mal do verbo dar são as armadilhas do termo retribuir.
Ainda assim adormeço nos teus braços esta noite. Fechada como uma caixa, onde tudo se guarda, se confunde, se esconde. Onde tudo fica mas nem tudo cabe.
Acorda-me amanhã devagarinho. Quente e brando como um dia de Verão. E quando tiveres de abrir a tampa, fá-lo com cuidado porque terás de a abrir com mãos. Que o mal do coração é não ter dedos.
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